3. REPORTAGENS outubro 2013

1. CAPA  TMIDOS SEM VERGONHA
2. ATUALIDADES  GUERRA QUMICA
3. CULTURA  A MORTE E O RETORNO DA MARVEL CULTURA  A MORTE E O RETORNO DA MARVEL
4. DIRIO  MINHA VIDA DE COBAIA
5. ZOOM  O QUE AS SUAS ROUPAS DIZEM SOBRE O BRASIL
6. EDUCAO  ONLINE, GRATUITO E DE QUALIDADE
7. VIAGEM  O VOO MAIS LONGO, DO PAS
8. COMPORTAMENTO  SUPER-MERCADO, O LABORATRIO
9. SADE  COMO SER O SEU FIM?

1. CAPA  TMIDOS SEM VERGONHA
Por muito tempo, eles foram vistos como esquisitos e destinados ao fracasso. Mas a cincia desmascarou as qualidades dos quietos. Agora,  a vez dos introvertidos darem lies aos extrovertidos. Silncio, por favor. 
REPORTAGEM / Carol Castro
DESIGN / Ricardo Davino
FOTO / Dulla
EDIO / Emiliano Urbim

     Charlie Brown s queria um amor. O amor da menina dos cabelos vermelhos. No dia dos namorados, escreveu um carto para ela. Ensaiou o momento da entrega, o tom de voz, os gestos. Mas o carto nunca saiu do seu bolso. Ele nunca teve coragem de se declarar. Na verdade, ele nem sequer perguntou o nome dela. Charlie Brown  o tipo de sujeito que se esconde atrs da timidez. Nossa, ele quase recusou um convite para viajar  Frana (seria muita novidade por metro quadrado). Como diz aquela cano dos Smiths: "timidez  legal, mas pode te impedir de fazer tudo que voc gostaria na vida". 
     Pode at ser. Mas ela  bem comum  talvez mais popular que o encabulado dono do Snoopy. "Muitas pessoas so tmidas, mas a maioria no sabe. E os mais tmidos pensam que s eles so tmidos, esto sozinhos no mundo", diz o americano Bernardo Carducci, autor de vrios livros sobre o assunto. Pasme, na nossa cultura de falastres, 50% se dizem tmidos. Dentro do seu crculo social, um em cada trs amigos  introvertido (tecnicamente, quem possui traquejo social, mas precisa de solido para recarregar baterias).  muita gente. S que essa maioria silenciosa ainda veste, conscientemente ou no, mscaras de extroverso. O problema  que, por muito tempo, ser reservado foi um problema. S os expansivos viravam chefes, cones, modelos a ser perseguidos. Por sorte, o mundo andou. As qualidades dos quietos (concentrao, produtividade e, por que no, bom senso) voltaram a ser valorizadas. E servem de lio at para os populares extrovertidos. 
     Ainda assim, a minoria silenciosa ainda se v obrigada a responder se "est tudo bem?" quando resolve passar um tempo na sua. Culpa do sculo 20.

O IMPRIO DOS TAGARELAS
     H cem anos, o mundo tinha vrios decibis a menos. O rdio e a televiso ainda no faziam parte nem do sonho de consumo das famlias. A maioria da populao ainda vivia no campo. Numa vizinhana rural de dez famlias, todo mundo era familiar  mesmo os tmidos e introvertidos. 
     At que cidades nasceram, incharam e os vizinhos passaram de 30 para 300. O Seu Z, dono da fazenda de caf, amigo da famlia, que casou com a prima de segundo grau da sua me, no era mais o patro. Os comerciantes tambm no vendiam apenas para os velhos conhecidos da regio, como antes, mas para uma massa desconhecida. "Cidados transformaram-se em funcionrios, enfrentando a questo de como causar uma boa impresso em pessoas com quem no tinham laos", explica a autora Susan Cain no recente livro O Poder dos Quietos. 
     E os extrovertidos acabaram se dando bem. Eles tinham o dom da comunicao: falavam mais, com segurana e simpatia. Vendiam-se melhor. Conquistaram coraes, mentes, vagas, clientes e transformaram a extroverso num culto: todos precisavam ser to brilhantes e radiantes quanto eles. Simplesmente porque dava mais certo. 
     Se antes os manuais de comportamento pregavam como ser mais formal, educado e tico, os livros de autoajuda do sculo 20 ensinavam como ser mais socivel. O primeiro best-seller dessa nova era veio dos EUA; em 1913, o ex-tmido Dale Carnegie lanou Como Falar em Pblico e Influenciar Pessoas no Mundo dos Negcios, que ensinava a usar a lbia para fazer sucesso profissional. Mas Carnegie acertou mesmo em 1936, quando estendeu o conceito de simpatia para a vida pessoal. Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, um guia prtico de extroverso, vendeu e ainda vai vender milhes mundo afora  est na 52 edio brasileira.  o livro de cabeceira de Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo e notrio introvertido.
     Carnegie no era o nico porta-voz da extroverso. Revistas, jornais e outras dezenas de autores passavam lies sobre como aprender a falar (e sobre quais assuntos). O historiador Warren Susman comparou as qualidades mais destacadas nos manuais dos sculos 19 e 20. "Cidadania", "dever", "boas aes", "bons modos" e "honra", destaques dos anos 1800, praticamente sumiram de 1900 em diante. Deram lugar a adjetivos como "magntico", "fascinante", "atraente", "dominante", "enrgico". A diretriz mudou de "seja uma boa pessoa" para "seja algum incrivelmente legal". 
     Na TV, as celebridades endossavam o culto  extroverso. A publicidade vendia os mesmos conceitos. Possuir uma personalidade introspectiva virou um defeito, coisa de gente estranha e fracassada. Mas mudar a chavinha de introverso para extroverso no era fcil. Nem todo mundo conseguia atuar no papel de desinibido, falastro. Por um fator de peso: a gentica.

COMO AS BOCHECHAS CORAM
 o primeiro dia no emprego novo e voc encontra sua nova chefa. A amgdala, rea do crebro responsvel por respostas automticas, instintivas, liga o sinal de alerta. Ela libera adrenalina no sangue, acelera os batimentos cardacos, dilata os vasos sanguneos (inclusive no rosto, podendo deixar as bochechas vermelhas), deixam a respirao ofegante e transformam o combustvel armazenado (acar e gorduras) em energia. Isso acontece em poucos segundos, aps os quais o assunto chega ao neocrtex, responsvel por formar decises racionais. Ele avalia a situao. No h perigo:  s sua nova chefa. Voc sorri, estende a mo e a cumprimenta. O neocrtex venceu o duelo com a amgdala, dissipou as chances de um sbito ataque de timidez. 
     Nos introvertidos, as amgdalas parecem mais excitveis  por isso eles so sensveis a novidades. E isso, de alguma forma, faz com que sejam mais retrados. Quem descobriu essa relao foi o psiclogo Jerome Kagan, da Universidade Harvard. Numa longa pesquisa, publicada h mais de 30 anos, ele acompanhou recm-nascidos at a infncia. Na primeira etapa, exps 500 bebs a estmulos desconhecidos, como ouvir vozes diferentes e ver mbiles em movimento. Uns 20% choravam muito forte, outros 40% nem se importavam, e 40% ficavam no meio termo. Aos dois, quatro, sete e 11 anos, as crianas participaram de novos testes para ver, outra vez, como reagiam s novidades. Alm de observar os comportamentos, os pesquisadores mediram a taxa cardaca, presso e temperatura (todas controladas pela amgdala). Os bebs mais chores acabaram se transformando nas crianas mais reservadas daquela turma. E tambm eram os que mostravam mais alteraes nas tarefas coordenadas pela amgdala. Seu neocrtex demorava mais para vencer a discusso e acalmar o organismo. 
     Um estudo mais recente, da Universidade de Iowa, mostrou que os crebros de introvertidos e extrovertidos relaxam de forma diferente. Nos introvertidos, o processo  comandado pela acetilcolina, neurotransmissor responsvel por memrias e elaborao de planos. J os extrovertidos precisam de uma alta dose de dopamina, neurotransmissor ligado s sensaes de prazer e recompensa. 
     Essas predisposies biolgicas ajudam a compreender as diferenas de comportamento. A amgdala de um introvertido frita em um ambiente cheio de estmulos. Para os quietos, uma festa pode ser extremamente cansativa  o relaxamento deles tem a ver com agitos internos. No caso dos extrovertidos, sentar sozinho para ler um livro  que cansa, no traz relaxamento nenhum. Pouco sensvel, sua amgdala precisa de mais coisa para se excitar  s cem tons de cinza para gerar dopamina suficiente. 
     A gentica, claro, no determina os atos de ningum.  como se ela fosse a estrutura da casa, e o revestimento, colocado por voc, fosse a personalidade. Nem todos os bebs escandalosos do experimento de Kagan continuaram reservados na vida adulta. Carl Schwartz, outro psiclogo de Harvard, convocou alguns desses jovens adultos para novos testes. As amgdalas dos ex-chores continuavam mais sensveis, mesmo entre os que se tornaram mais gregrios. Ou seja, sua gentica no mudou, mas eles aprenderam a controlar suas reaes.  como se, ao ouvir as queixas da amgdala frente a um desconhecido, a pessoa dissesse: "Calma, j passamos por isso antes. Estique o brao, cumprimente esse cara e tudo vai ficar bem".  possvel, mas cansa.

ENFIM, AS VANTAGENS
     As descobertas sobre a influncia da gentica no comportamento no so mera curiosidade.  a cincia afirmando que timidez no  doena, s um jeito diferente de funcionar. A internet tambm deu uma forcinha: falar com os dedos, num mundo virtual, sem a obrigao de resposta imediata, deixou os reservados mais confortveis. E as pessoas se deram conta de uma coisa: ser introvertido tem suas vantagens. 
     "As pessoas esto mais abertas  ideia de que h uma fora nas pessoas mais reflexivas", conta Beth Buelow, autora do blog The Introverted Entrepreneur (em portugus, O Empreendedor Introvertido). Fora justificada pelas tais diferenas bioqumicas. Como sentem menos necessidade de se expor a estmulos novos, os introvertidos podem se concentrar melhor, dedicar mais foco  resoluo de um problema. 
     Num experimento em que o psiclogo Richard Howard distribuiu labirintos impressos para um grupo de 50 pessoas, os introvertidos se saam melhor. No por inteligncia, mas pacincia: eles insistem mais nos desafios. Eles demoram mais para responder, mas, como seu crebro trabalha mais com associaes e memrias, tendem a encontrar respostas que no passariam pela cabea de um desatento extrovertido. Essa extrema concentrao, inclusive, faz com que introvertidos detestem ser interrompidos. E, por mais que se esforcem para trabalhar em grupo, se saem melhor em tarefas individuais. 
     Os tmidos, diferentemente dos "destemidos", no costumam trocar razo por emoo. "Sensibilidade  recompensa no  apenas uma caracterstica interessante da extroverso; ela  o que faz um extrovertido ser extrovertido", escreve Cain. 
     Essa ousadia pode render bons frutos, como transformar a mercearia do bairro em uma rede de supermercados. Mas essa atrao por riscos pode desligar a chave da sensatez. "J vi negociaes em que os lderes fecham acordos ou compram empresas por preos absurdos, s para sentir o prazer da vitria. Depois se perguntam por que fizeram aquilo", escreve o autor Bernardo Carducci. Isso acontece quando a amgdala vence o duelo com o neocrtex. Alm de dar voz ao medo, ela pode insistir para que voc d vazo a outros instintos, como desejo e prazer.  por isso tambm que extrovertidos batem mais o carro e pulam mais a cerca. Desses males, pelo menos, os introvertidos sofrem menos. 
     Por outro lado, um perfil pouco ousado e mais calado no se enquadra naquele esteretipo tpico de chefe  o cara que  "magntico", "dominante", "enrgico"... Mas tudo bem. Colocar introvertidos no comando tem outras vantagens. Um estudo de pesquisadores de Harvard descobriu que funcionrios proativos liderados por extrovertidos se abstm de dar opinies. Com introvertidos, acontece o oposto: eles no temem conflitos com a chefia e se sentem livres para palpitar. E, quando fazem, os lucros aumentam.
     Os introvertidos tm ainda mais um trunfo nas relaes pessoais. Com essa mania de passar mais tempo calados, observar mais do que agir, eles viram bons ouvintes. (Um extrovertido tem sua ateno desviada com mais facilidade, se perde na conversa e nem sempre compreende de verdade qual  o problema.) Alm disso, a sensibilidade aguada faz deles observadores perspicazes, do tipo que estuda sua expresso facial, repara no tom da sua voz e percebe antes de um falastro quando algo no vai bem. 

BANG-BANG A YIN-YANG 
     Mas devagar com a amgdala. Assim como foi errada a supremacia da extroverso no passado, no cabe declarar esta a Era dos Introvertidos. So perfis opostos que no se anulam, se complementam. E mais: um tem muito a aprender com o outro. "No adianta um introvertido criativo e focado se esconder na concha e no conversar com ningum sobre seu trabalho. Precisa se esforar minimamente para interagir um pouco", explica Eliete Bernal Arellano, professora de psicologia organizacional da Universidade Mackenzie.  o que fazem, sem nenhum esforo, os extrovertidos. Em troca, eles podem adotar alguns bons comportamentos dos introvertidos: como manter o foco sem ter de sair, angustiado, para um caf a cada 20 minutos. Juntos, os dois podem evitar o excesso de comodismo dos quietos e o risco exagerado dos ousados. 
     Nos relacionamentos,  preciso entender que introvertidos no ficam quietos porque se chatearam ou enfrentam algum problema. s vezes, s esto cansados. Mas que aprendam com os extrovertidos:  preciso se esforar para cultivar relaes, seja para conversar com a famlia do namorado ou apresentar um projeto no trabalho. Mesmo que isso obrigue voc a passar o fim de semana em casa reabastecendo energias. 
     O mundo no seria muito agradvel se todos vivessem em busca de prazer a todo custo, se todos falassem sem parar e mal tivessem tempo para ouvir um ao outro. Ainda que o exemplo seja perigosamente real, seu oposto tambm seria um saco: um marasmo insuportvel se todos se enclausurassem e ningum fosse  esquina jogar conversa fora. Por sorte, temos todas as variaes. Juntos  que introvertidos e extrovertidos so mais divertidos. 

MENOS PAPO, MAIS FOCO. O tmido nunca vai ser o rei da conversa de corredor. Mas, como passa bem sem novos estmulos, tem mais facilidade para se concentrar e produzir.

DESCONFORTO COM DESCONTO. Introvertidos sentem sua energia ser drenada em eventos sociais. Mas eles provocam mais empatia em papos individuais  e so melhores ouvintes.

DESCONFIADOS DA CONFIANA. Como no se fiam em seu carisma, os mais quietos fazem o dever de casa antes de apresentaes e reunies - postura que se reflete em outras situaes.

TIMIDEZ  AUTOAVALIAO
50% se acham tmidos
10% no se acham nada tmidos
40% depende

QUEM FALA, CALA E AMBOS
D PARA SER TMIDO E EXTROVERTIDO, ASSIM COMO DESINIBIDO E INTROVERTIDO. VEJA COMO PERSONAGENS CONHECIDOS SE ENCAIXAM NESSA CLASSIFICAO.

TMIDO  INTROVERTIDO
J.D. SALINGER - Em 1965, o escritor deixou de publicar e viveu isolado at sua morte, em 2010.
CHARLIE BROWN - O dono do Snoopy nunca foi popular, mas tinha uma vida social mnima.
LIONEL MESSI - O craque argentino  hiper-reservado, mas vem superando sua timidez.
J.K. ROWLING  Ela criou Harry Potter e adora os fs, mas odeia dar entrevistas.
MARK ZUCKERBERG - A rotina de CEO do Facebook obrigou Mark a se tornar menos tmido e introvertido.

INTROVERTIDO  DESINIBIDO
ADELE - Encara o pblico na boa e com frequncia faz refeies solitrias.
DILMA - No tem um pingo de vergonha e sempre marca posio, mas no  de muitos amigos.
OBAMA - Bom de discurso, mas criticado pela distncia da burocracia diria.
CHICO BUARQUE - Falso tmido: no deixa de fazer nada, s no gosta de badalao.

TMIDO  EXTROVERTIDO
ROBERTO CARLOS - Apesar de praticamente recluso, at se veste de marinheiro em seu cruzeiro.
VICTOR (da dupla Victor & Leo)  Vitor ps um C no nome artstico para ser outra pessoa no palco.
MICHAEL JACKSON - Apesar das poucas (e polmicas) amizades, era um artista completo sempre que necessrio.
WOODY ALLEN - Tmido (lhe falta traquejo social) e extrovertido ("precisa" filmar todo ano).

EXTROVERTIDO  DESINIBIDO
LEO (da dupla Victor & Leo)  O irmo de Vitor  um pouco mais solto nos shows.
ROMRIO - Mesmo sendo frasista e comprador de brigas, anda relativamente discreto.
RONALDINHO GACHO - Desenvolto no visual e no comportamento, ainda pena diante de um microfone.
LULA - Diz tudo que pensa, mas, diferente de sua sucessora,  muito carismtico.
MILEY CYRUS - Sua performance provocante no VMA 2013 diz tudo.

PARA SABER MAIS
O Poder dos Quietos, Susan Cain, Agir, 2012.
The Introvert Advantage, Marti Olsen Laney, Workman Publishing, 2002.
Shyness - a bold new approach, Bernardo J. Carducci, HarperCollins Publishers, 1999.

Produo Vincius Manoel
Maquiagem Samantha Potti
Atores Len Pezo Fisch, Nicole Marangoni e Oswaido Valle
Tratamento de imagem Otvio Silveira


2. ATUALIDADES  GUERRA QUMICA
Veja o que uma nica e inocente bexiga cheia de gs venenoso pode fazer em uma sala fechada e compare 11 das piores armas qumicas que existem. Voc vai entender por que elas so to polmicas  e causam tanto medo.

BOMBA NA SALA - A guerra na Sria j dura dois anos. Mas grandes potncias s falaram em interveno quando surgiram relatos de uso de armas qumicas no pas. Elas so proibidas por uma conveno internacional, embora nem sempre isso seja respeitado. Para exemplificar seus efeitos mortferos, usamos uma quantidade equivalente a um balo de ar em uma sala de 36 m2 (*Para medir a concentrao letal da arma, especialistas dividem a massa da substncia pelo volume do ambiente. O clculo no leva em conta outros fatores. O tempo de ao pode variar de acordo com o peso da vtima, a temperatura e a presso no ambiente, a volatilidade dos gases e a maneira como cada substncia age no corpo.)
108 m3 volume da sala
7,8 GRAMAS de arma qumica

+ INCAPACITANTE
VESICANTES
Pouco letais, so usadas para enfraquecer e impedir o contra-ataque inimigo. Em contato com a pele, induzem a formao de bolhas e leses graves. A toxicologia ainda no desvendou completamente a maneira como elas agem no corpo.
1- GS MOSTARDA - CRIAO 1822, Frana. H vrios tipos de gases mostarda, tambm conhecidos como iperita, que agem de maneira parecida. Eles foram usados pela primeira vez em 1917, na Primeira Guerra.
Tempo de exposio para incapacitar: 20 minutos.
2- LEVISITA - CRIAO 1904, Frana. O cientista que a desenvolveu foi hospitalizado ao ter contato com ela. Os EUA fizeram testes em humanos nos anos 40.
Tempo de exposio para incapacitar: 18 minutos.

+ LETAL
SANGUNEOS
No tiram o flego, arrancam. Atacam clulas do sangue e impedem o transporte de oxignio, sufocando as vtimas. Mas  preciso uma concentrao relativamente alta para matar. Na concentrao mostrada aqui, mata em uma ou duas horas.
1- CLORETO DE CIANOGNIO - CRIAO 1916, Frana. Demora mais para matar, mas  extremamente perigoso porque atravessa filtros de mscara de gs.
Tempo de exposio para matar: 2 horas e 32 minutos
2- CIANETO DE HIDROGNIO - CRIAO 1782, Sucia. Um dos componentes do Zyklon B, o gs das cmaras de gs dos nazistas.
Tempo de exposio para matar: 1 hora e 10 minutos.

SUFOCANTES
Afogam a seco. Substncias como cloro e fosgnio estimulam a secreo de fluidos pelos alvolos pulmonares, impedem a transformao de oxignio em gs carbnico e, assim, interrompem a respirao das vtimas.
1- CLOROPICRINA - CRIAO 1848, Reino Unido. Muito usado nas duas grandes guerras, mas, desde 1945, no h registros de ataques.
Tempo de exposio para matar: 4 horas e 37 minutos.
2- FOSGNIO - CRIAO 1812, Reino Unido. Em 1928, 11 toneladas de fosgnio escaparam de uma fbrica na Alemanha: mais de 300 feridos e dez mortos.
Tempo de exposio para matar: 44 minutos
3- CLORO - DESCOBERTA 1774, Sucia. Sim, o cloro que trata gua de piscina  a mesma arma que intoxicou muita gente na Primeira Guerra Mundial.
Tempo de exposio para matar: 41 minutos

NEUROTXICOS
Os mais fatais, interrompem a ao da enzima acetilcolinesterase, essencial no sistema nervoso. O resultado  uma pane no crebro que causa suor, diarreia, vmito, espasmos, taquicardia, convulses e perda de conscincia. Em segundos. 
1- TABUN - CRIAO 1936, Alemanha. Uma das armas usadas pelo Iraque contra o Ir nos anos 80.
Tempo de exposio para matar: 5 min. E meio
2- SARIN - CRIAO 1938, Alemanha. Ganhou fama mundial com o ataque no metr de Tquio, em 1995. 
Tempo de exposio para matar: 80 segundos
3- SOMAN - CRIAO 1944, Alemanha. Produzido em larga escala pela Unio Sovitica e pelos Estados Unidos nos anos 50. Mas no h relatos oficiais de uso.
Tempo de exposio para matar: 58 segundos
4- AGENTE VX - CRIAO 1952, Reino Unido. Os nicos registros foram entre 1994 e 1995 pelo grupo fundamentalista japons Aum Shinrikyo. Uma pessoa morreu.
Tempo de exposio para matar: 42 segundos

HISTRIA DA DEVASTAO
Armas qumicas e biolgicas, uma tradio milenar.
600 a 190 A.C. - Flores txicas so armas comuns na Grcia antiga. Diferentemente das qumicas, armas biolgicas so extradas de plantas e bactrias
1675  Estabelecido o primeiro acorde entre franceses e alemes proibindo o uso de balas envenenadas em combate.
1914-1918  Na Primeira Guerra Mundial, 90 mil pessoas morrem vtimas de fosgnio, cloro, gs mostarda, cianeto de hidrognio e cloreto de cianognio.
1919  Surge o conceito armas de destruio em massa.
1925  O Protocolo de Genebra probe o emprego de armas qumicas e biolgicas. O documento  assinado e ratificado por 40 pases. EUA e Japo ficam de fora.
1937-1945  O Japo ataca a China com agente mostarda, fosgnio e levisita. Na Batalha de Changde, em 1943, as armas qumicas matam 9,3 mil pessoas.
1939 -1945   O Holocausto mata pelo menos 1,1 milho de pessoas com Zyklon B em cmaras de gs.
1960-1975  No Vietn, os EUA atacam os inimigos com agentes vesicantes como adamsita. Cerca de 400 mil morreram ou se feriram, segundo estimativas.
1963-1970  Na Guerra Civil do Imen, o Egito intervm e  o primeiro pas do Oriente Mdio a usar armas qumicas: 1,5 mil mortes.
1983-1988  Na guerra contra o Ir, o Iraque usa gs mostarda, Sarin e Tabun em ataques liderados por Saddam Hussein, matando 20 mil pessoas.
1993 - A Conveno de Armas Qumicas probe emprego e estocagem de armas txicas. O acordo  assinado por 189 pases.
2002 - Rebeldes chechenos invadem um teatro em Moscou e fazem 850 refns. A Rssia revida com um gs no revelado, matando 129 pessoas, segundo estimativas.
2013  Em agosto, na Sria, acusaes de uso de Sarin em um ataque que matou mais de 1,4 mil pessoas aumentam a tenso entre o pas e o Ocidente.


3. CULTURA  A MORTE E O RETORNO DA MARVEL
Como uma editora falida se transformou numa fbrica bilionria de histrias em diversas plataformas em 15 anos  e sem largar suas origens.
REPORTAGEM Tiago Lopes

	As bancas estavam lotadas de revistas e vazias de gente. Ttulos e ttulos se acumulavam uns sobre os outros, buscando chamar loucamente a ateno de leitores que, um dia, foram fiis e esperavam ansiosos cada edio.  Mas eles no vinham mais. Cansados de tantas pginas insossas, estavam frustrados. Aqueles do outro lado, que faziam as revistas, tampouco estavam contentes. Horas extras em cima de horas extras, mal remunerados e pouco reconhecidos pelos patres  que somavam decises erradas e apostas furadas. O mercado como um todo definhava. No estava sendo fcil trabalhar no mercado americano de quadrinhos na segunda metade da dcada de 1990. A Marvel Comics viveu isso como ningum. Chegou a ter em caixa dinheiro que no daria nem para comprar um apartamento de luxo em So Paulo. Quase faliu, mas, em poucos anos, se reinventou, explorou outros nichos e se firmou como uma das maiores usinas de criatividade do mundo. Isso sem abandonar as origens que lhe deram fama: X-Men e Os Vingadores completaram 50 anos em setembro  mais populares e rentveis do que nunca. 

ASCENSO E QUEDA 
     Inaugurada em 1939 com o nome Timely, a empresa fazia quadrinhos inspirados em um estilo que fazia sucesso no mercado americano do comeo do sculo 20. Era o pulp, histrias de fico cientfica e fantasia impressas em papel de baixa qualidade  papel de gibi. O mocinho Tocha Humana e o vilo Namor foram os primeiros personagens conhecidos da casa. Mas conhecido no  idolatrado. 
     Quando os Estados Unidos declararam guerra s foras do Eixo, a empresa entrou no imaginrio coletivo. A Segunda Guerra Mundial fez o pas clamar por heris, e a Timely sanou isso ao criar o Capito Amrica, que nasceu em 1941 e se tornou a estampa cultural do pas no perodo. Criado por Joe Simon e Jack Kirby, ele foi o estouro que provocou a primeira das muitas disputas internas na Timely. A dupla achava que Martin Goodman, fundador da empresa, no pagava o que mereciam. Secretamente, eles comearam a trabalhar para a concorrente National Comics  que viria a se tornar a igualmente clebre DC. A National pagava  dupla US$ 500 semanais, quase o triplo do que recebiam da Timely, US$ 160. Ao saber, Goodman demitiu os dois, promovendo o estagirio Stanley Lieber, 19 anos, a editor interino. O garoto adotou, ento, o pseudnimo que o tornaria quase to famoso quanto suas crias: Stan Lee. 
     Com o fim da guerra, veio a ressaca de heris, e o mercado de quadrinhos precisou se adaptar. No final dos anos 50, a DC Comics j era uma potncia, especialmente porque concentrava sua fora criativa nos j bem estabelecidos ttulos Superman, Batman e Liga da Justia. Enquanto isso, Goodman investia na criao de novas marcas, sem sucesso. At que, em 1961, quando a Timely j era Marvel Comics, a sorte mudou. Surgia Quarteto Fantstico, primeira tentativa da empresa de oferecer  um "produto mais sofisticado para um pblico mais adulto". Os heris do grupo foram os primeiros a no usar mscaras, discutiam entre si e, alm de tentar salvar universos da destruio, tinham preocupaes mais mundanas, como manter as contas em dia. Ou seja, eles tinham falhas e tiques humanos, e isso acertou em cheio o pblico (a mesma caracterstica que mantm os deuses gregos populares at hoje). O sucesso impulsionou o perodo criativo mais frtil da Marvel. Ela lanou uma sucesso de heris, como Hulk, Homem de Ferro, X-Men, Thor e Homem-Aranha, o mais popular deles. 
     Mas o processo criativo de nveis hiperblicos no impediu a empresa de eliminar uma caracterstica que a acompanhou desde sempre. A Marvel no cultivava seus funcionrios. Ela mantinha at seus profissionais mais criativos e talentosos no suado esquema freelancer, sem contrato nem benefcios. Isso levava a pedidos de demisso em massa. 
     No incio dos anos 90, a Marvel lanou mais histrias e personagens. A srie 2099 marcou o perodo. Era um universo paralelo onde foram transportados os principais heris da casa. A empresa investiu tambm em edies voltadas para colecionadores. Elas eram, basicamente, o mesmo produto embalado de maneiras diferentes. Firula atrs de firula. Nessa poca, tabelas de Excel cheias de resultados eram mais importantes que boas histrias. A Marvel jogava novos quadrinhos no mercado com a mesma facilidade e descuido que um tute de madrugada. 
     No comeo, o pblico at correspondia, comprava muito, ela reagia e lanava mais histrias. Mas, sem levar em conta o esgotamento fsico e criativo de suas equipes, o resultado estava nas bancas. Revistas sem sal, personagens desprovidos de carisma, histrias pfias. Deu no que deu. Os leitores, que queriam mais que capas que brilhavam no escuro, se afastaram. Com tanta oferta, as histrias comearam a perder o senso de continuidade. Novas sagas estreavam sem que as que j existiam terminassem. Uma baguna s. Ao longo da dcada, as vendas caram 90%. No importava ter dezenas de ttulos  venda, a quantidade de revistas ficou inversamente proporcional ao dinheiro da empresa. A Marvel chegou a ter US$ 3 milhes em caixa. Em 1997, entrou em processo de falncia. 
     O mercado estava saturado. A DC sofria de um mal parecido e, para conseguir chamar a ateno, precisava matar e ressuscitar seus maiores heris. No fundo do poo, a Marvel teve de mudar para no falir. Ela aplicou aos negcios a mesma estratgia tomada por seus viles: quando os recursos de um ambiente se esgotam, invada outros para continuar a explorao de riquezas. Com os quadrinhos minguando, era hora de navegar em outras mdias. 

RESSURREIO 
     Quem colocou esse plano de negcio em prtica foi Peter Cuneo, CEO da Marvel entre 1999 e 2002. Seu objetivo era maximizar a exposio da marca a um nvel mundial, por meio da venda de direitos de uso dos personagens para videogames, brinquedos e, principalmente, cinema. Isso sem abrir mo da tradio. Para buscar uma nova vida nos quadrinhos, ele ps em vigor uma regra: nenhuma nova histria poderia ir alm de seis edies. A ideia era facilitar a chegada de novos leitores e satisfazer os mais fieis. Era mais fcil se apegar ao Wolverine quando havia uma histria menor disponvel, com comeo, meio e fim, em vez de inmeras aventuras mostrando os personagens em trajes, personalidades e cenrios diferentes. 
     O passo seguinte foi fincar os ps no cinema. Capito Amrica j tinha se arriscado em filmes que foram um desastre, ento seria preciso vender os personagens a estdios que soubessem adapt-los em filmes rentveis. A Fox adquiriu os direitos de X-Men e a Columbia, de Homem-Aranha. O primeiro saiu em 2000. Custou US$ 75 milhes e arrecadou o qudruplo. O longa do cabea de teia estreou em 2002 e arrebentou, faturando quase US$ 900 milhes. Uma nova era do cinema comeava. Desde ento, em quase todos os veres americanos (poca em que os filmes de maiores bilheterias so lanados), houve pelo menos dois longas-metragens cujos personagens principais eram pessoas de uniformes grudados e identidades secreta que enfrentavam terrveis viles. 
     S que, na dcada passada, o sucesso no era diretamente da Marvel, mas dos estdios. Segundo notcias da poca, ela recebeu s US$ 26 milhes para licenciar os trs primeiros X-Men, que renderam mais de US$ 1 bilho. Mesmo assim, o dinheiro que entrava com os filmes foi o suficiente para a Marvel apostar. Como alguns estdios no cumpriam prazos e perdiam os direitos de filmagem, ela aproveitou para recomprar suas marcas e se lanar no cinema. 

DOMINAO MUNDIAL 
     A empresa investiu mais de US$ 500 milhes para construir sua prpria produtora. Em 2008, lanou Homem de Ferro, o primeiro filme 100% Marvel. De cara, j arrecadou mais que  o investimento. O homem de lata rendeu quase US$ 600 milhes. Foi um duplo sucesso. Primeiro porque agora o lucro era inteiro da empresa. Segundo porque mostrou que mesmo um heri historicamente de segundo escalo poderia ganhar uma popularidade tremenda no cinema. Bastava o filme agradar. 
     No mesmo ano, a Marvel lanou O incrvel Hulk, em uma tentativa de resgatar o heri do fiasco promovido pela Universal em 2003, em um filme no qual ele parecia um boneco inflvel indigno de respeito. Capito Amrica: O Primeiro Vingador e Thor, alm de Homem de Ferro 2, vieram em seguida. Tudo para aquecer o clima para a produo que reuniria os quatro: Os Vingadores. Foi uma fase de sucesso avassalador, com USS 6,94 bilhes em bilheteria, somados os filmes de outros heris. Uma mdia de duas produes por ano e US$ 495 milhes por filme. Durante o perodo, em 2009, a Disney comprou a Marvel Entertainment, diviso da empresa que detinha o estdio, por US$ 4,3 bilhes. O negcio foi bom para ambos. A Marvel continua com o processo criativo e a liberdade de produo. E a casa do Mickey fortaleceu a mquina de distribuio e marketing. 
     O pblico parece no se cansar. Nos quadrinhos, a empresa voltou  liderana. E o mercado, alis, cresceu, graas ao sucesso no cinema e  popularizao de tablets. Em vez de matar o papel, o iPad e seus similares deram um gs ao formato e j so responsveis por 19% das vendas de HQs. No cinema, a Marvel s cresce. Este ano, Homem de Ferro 3 virou o quinto mais visto da histria. Thor 2 - O Mundo Sombrio tem estreia prevista para novembro. A srie Marvel's Agents of Shield  um dos lanamentos de maior destaque na TV. Capito Amrica 2 (2014) e Os Vingadores 2 (2015) devem concluir a produo massiva de filmes com esses heris. 
     Mas a Marvel quer mais. J est em produo a adaptao de Guardies da Galxia, com heris menos conhecidos e cheio de aliens e universos paralelos  assuntos que o gnero explorou pouco at ento. "Acho arriscado. Eu escolheria personagens mais modestos, como Punho de Ferro", diz Sean Howe, autor do recm-lanado Marvel Comics  A Histria Secreta. "Poderia ganhar vida na tela por uma frao do custo de Guardies". Outro heri menos popular que deve estrear no cinema  o Homem-Formiga, previsto para 2015. So as apostas mais arriscadas da Marvel at agora. Com personagens da srie C virando filme, o cinema virou de vez o quintal bilionrio dos quadrinhos. Pelo menos nos prximos anos, collants coloridos vo ser quase to comuns nas telas quanto jeans.

DE 1990 A 1997
Da crise  quase falncia, a Marvel enfraqueceu nos quadrinhos e investiu pouco em cinema.
Quadrinhos  As vendas dos produtos da Marvel caram em torno de 90% ao logo da dcada
13% do mercado americano  QUADRINHOS
1 filme  BLADE, 1998 US$ 131 milhes
FATURAMENTO (em milhes de dlares)
1994 US$82,2
1997 US$ 43,8
Com US$ 250 milhes de dvidas, entra em processo de falncia.

DE 1998 A 2007
A recuperao multiplataforma
16 FILMES US$ 5,45 bilhes de bilheteria.
X-MEN, 2000, US$ 296 milhes
HOMEM ARANHA, 2002, US$ 822 milhes
75 JOGOS DE VIDEOGAME com personagens Marvel foram lanados desde 1998.
JOGOS, em milhes de cpias vendidas
- Heris Marvel 8,56
- X-Men 9,71
- Homem-Aranha 28,21
6 EDIES  Nmero mximo que as histrias passaram a ter para atrair novos leitores e agradar os antigos.

FATURAMENTO (em milhes de dlares)
1997 US$ 43,8
1998 US$ 104,1
1999 US$ 167,8
2000 US$ 103,1
2001 US$ 94,6
2002 US$ 178,1
2003 US$ 268,8
2004 US$ 357,3
2005 US$ 341,6
2006 US$ 253,2
2007 US$ 429,8

DE  2008 A 2013
Estdio prprio e domnio no cinema
Com o sucesso de Homem-Aranha, a Marvel levanta US$ 525 milhes para finalizar seu estdio de cinema. Ela assume o controle dos filmes  e do lucro. Os longas estrelados pelos Vingadores simbolizam a poca.

14 FILMES. US$ 5,45 bilhes de bilheteria total.
HOMEM DE FERRO 1, 2 E 3. 2008 1 2013. US$ 2,4 bilhes
CAP. AMRICA. 2011. US$ 380 milhes
THOR. 2011. US$ 296 milhes
OS VINGADORES. 2013. US$ 1,5 bilho

FATURAMENTO (em milhes de dlares)
2007 US$ 429,8
2008 US$ 620

VINGADORES VS. X-MEN
Uma histria com o Batman atuando em Metrpolis, cidade do Superman,  o que nas HQs se chama crossover. A prtica das HQs pode ser o prximo grande passo no cinema.  possvel que a Fox, que ainda detm os direitos da turma do Professor Xavier, se una  Marvel para um hipottico Os Vingadores vs. X-Men. No ano passado, a minissrie com os dois grupos fez sucesso nos quadrinhos. Produtores da Fox e da Marvel j disseram em entrevistas que adorariam tirar a ideia do papel. Para o bigrafo da Marvel Sean Howe, pode ser uma furada. "Jogar numa s histria um bocado de personagens para capitalizar em cima do apelo popular deles tem uma longa tradio de resultar em coisas horrendas", diz. Os anos 90 mostraram que isso pode afundar um bom negcio.

Fontes Comichron, IMDb, Wikinvest
Custo e bilheteria de Thor 2, que estreia em novembro, no esto na conta.

PARA SABER MAIS
Marvel Comics: A Histria Secreta
Sean Howe, Leya, 2013


4. DIRIO  MINHA VIDA DE COBAIA
Dinheiro fcil, plulas misteriosas, malucos sem TV e priso de ventre. Nosso reprter conta como foi ficar internado em um hospital testando um novo remdio.
REPORTAGEM Dean Goodman, de Los Angeles (EUA)
DESIGN Jorge Oliveira
ILUSTRAO Zansky
TRADUO E EDIO Emiliano Urbim

     Aquele analgsico que venceu sua ltima febre no apareceu assim, do nada, na farmcia. Entre o laboratrio e a gndola, foram anos de pesquisa, milhes de dlares, frmulas descartadas e uma penca de relatrios. Entre eles, o resultado de testes, primeiro em animais e depois em humanos.  a que entram pessoas como eu. 
     Pessoas saudveis, dispostas a ingerir cpsulas, passar cremes, usar aparelhos mdicos  tudo para ver se eles funcionam. Depois disso  que os produtos so testados em doentes. H riscos, claro. Toda vez que algum engole uma plula, est sujeito ao que a indstria polidamente chama de "efeito adverso". Em 2006, seis britnicos que usaram uma droga anticncer tiveram falncia de rgos. Mortes no so incomuns na ndia, onde o controle  frouxo. 
     Aqui nos EUA, estes testes so exaustivamente supervisionados. E, ao contrrio do Brasil, as cobaias so oficialmente pagas. Mesmo assim, dinheiro  um assunto sensvel: espera-se que sua motivao seja humanitria, ajudar a sociedade. O governo chama o meu cach de "incentivo de recrutamento". Eu chamo de frias muito bem pagas. 

COMO GANHAR MAIS DE R$ 9 MIL TOMANDO PLULAS (SUPOSTAMENTE SEGURAS) 
     Estou no meio de um estudo de 12 dias, meu primeiro. Soube dele no site de uma firma que conduz testes clnicos para o setor farmacutico. Passei em um exame fsico bsico e fui convidado a participar. Ao final, receberei um cheque de US$ 4.100. Eu e mais 15 pessoas devemos tomar trs plulas de uma vez toda manh. Eles checam nossas bocas e mos para assegurar que ingerimos as cpsulas. Alguns recebem o remdio real, outros recebem placebos  ningum sabe quem ganha o qu. Os pesquisadores checam a velocidade com que a plula  absorvida e metabolizada. Tambm temos de nos submeter a coletas de sangue, eletrocardiogramas e outras avaliaes frequentes. 
     Nem penso em "efeitos adversos". Meu estudo  um dos mais tranquilos: o remdio j est no mercado, mas precisa ser testado novamente antes de ser lanado em outros pases. Para preservar a confidencialidade do processo, eu no posso identificar o produto, seu fabricante ou o local dos testes. S posso dizer que foi na Califrnia e que o remdio trata uma doena incurvel que voc nunca vai querer pegar. 

UM LEVE AROMA DE ASILO 
     Estamos detidos em um hospital, numa ala alugada pela firma de testes clnicos. Obedeo todas as ordens da equipe mdica. Como e jejuo quando eles mandam. As regras da casa banem comida de fora, romance entre colegas cobaias e navegao imprpria na internet. 
     Cmeras de segurana gravam nossos movimentos nos corredores. A sada tem alarme e  vigiada por um guarda, ali para prevenir a "contaminao" do local com material contrabandeado. 
     Somos livres para desistir do estudo a qualquer momento. Mas por que largar um emprego desses? Estou sendo pago quase US$ 350 ao dia para relaxar em meus pijamas, utilizando plenamente as opes de reclinagem da minha cama. Despreocupadamente, vejo da janela os pobres motoristas presos no trfico da estrada intermunicipal. Assisto a vdeos e tiro muitas sonecas. 
     Se estou me sentindo criativo, me aventuro na espaosa rea de recreao, onde colaboro com projetos de arte e artesanato coordenados pelo "terapeuta recreativo". s vezes, para termos um pouco de ar fresco, ele nos escolta para fora do prdio, at um jardim japons que faz parte do hospital. So amostras grtis do meu futuro em uma casa de repouso. 

TEM GENTE NORMAL, GENTE LEGAL E DOIDOS QUE ACHAM QUE A TV  DELES 
     Antes de se tornar um diretor famoso, Robert Rodriguez participou de quatro testes clnicos e usou o dinheiro para bancar seu primeiro filme, El Mariachi. Ele at ps um de seus colegas de hospital no filme. Meu grupo inclui aspirantes a estrelas de Hollywood, universitrios e recm-formados e profissionais da sade, todos buscando ganhar um dinheirinho extra. Um sujeito est aqui para poder se acertar com a receita federal  ao fazer o imposto de renda, ele esqueceu de declarar justamente seus ganhos como rato de laboratrio. 
     Divido meu quarto com dois caras que esto de frias de seus empregos de verdade. Eles so veteranos, e sou grato por seus conselhos e anedotas. Como eu, eles rodaram o mundo e trocamos histrias de viagens. Qualquer histria: temos muito tempo livre. 
     Nossas instalaes abrigam participantes de outros estudos. Pessoas partem e chegam o tempo todo. Minha curiosidade sobre uma safra particular de caras novas vira ansiedade quando descubro que eles esto testando um medicamento porque possuem um distrbio mental. E se eles bancarem os psicopatas para cima de mim? Uma enfermeira me assegura que eles no so perigosos. "Os maluces", como meus colegas de quarto os apelidam, se apropriaram da TV da rea de recreao. Curtem desenhos animados. Quando eles vagam pelos corredores falando em seus telefones, me pergunto se tem algum do outro lado. 
     H tambm um grupo de japoneses, que ficam entre eles. Na verdade, h pouca interao entre os participantes dos vrios estudos.  como se fssemos times rivais. 

ESTE PO QUE NO ME DEIXA 
     As refeies so deixadas em nossas camas. Escolhemos de um amplo cardpio no dia anterior. Como tenho uma queda por doce, venho me overdosando com pores duplas de torta de cereja, bolo de cenoura com cobertura, biscoitos de aveia, sorvete. 
     Trs refeies com horrios fixos  desconfortvel, a princpio. E se eu tiver fome s trs da tarde? Vou morrer de inanio antes do jantar s cinco? Mas me dou conta de que vivo saciado porque no estou queimando nenhuma caloria. Sinto-me mal por todo o po que tenho comido. 
 noite chega um sanduche de peru. Estou me sentindo empanturrado. Como mesmo assim. Ganhei 1,5 kg em uma semana. A enfermeira adverte que nosso estilo de vida sedentrio pode levar  constipao. 
     Ela est certa. 

TEORIAS SOBRE AS ENFERMEIRAS E UMA CERTEZA SOBRE O MDICO 
     Outros pensamentos irracionais adentram minha cabea enquanto confronto o tdio. Muitas das enfermeiras so asiticas e latinas bem bonitas. Isso significa que elas so melhores em seu trabalho e vo extrair meu sangue mais gentilmente do que aquelas que no so to atraentes? Para minha surpresa, a pessoa mais competente  um grande camarada filipino. Um doutor faz as rondas ocasionalmente, pergunta como estamos nos sentindo, mas no me parece muito engajado. Isso aqui deve ser dinheiro fcil para ele, assinando pronturios para voluntrios saudveis em vez de ter de lidar com doentes irritantes. 

O ALTRUSMO  UM SAQUINHO CHEIO DE ALGO QUE EU MESMO FIZ 
     O ltimo dia  estranhamente triste, como o fim de um ano escolar. Ser que um dia verei meus novos amigos novamente? Ou as enfermeiras gatas? Ns fazemos nossas malas, deixamos nossos lenis na lavanderia, cruzamos com o guarda e nos dirigimos para casa. O cheque chega alguns dias depois, quando estou no meio de um processo de desintoxicao  d-lhe vitamina de frutas e legumes para regularizar meu intestino. 
     Coincidentemente, acabo de me inscrever em outro teste clnico, desta vez em uma faculdade mdica. Sem pernoites; s uma ressonncia magntica. Ganho uma foto do meu crebro, elogios ao meu largo hipocampo e US$ 60. Mas tambm querem que eu providencie uma amostra de fezes. Eles me do inclusive um kit caseiro de coleta, com instrues detalhadas. 
     Eis algo que eu nunca planejei fazer. 
     Mas, depois de lidar com vrios profissionais dedicados, sou arrebatado por uma estranha sensao de altrusmo. Sim, eu quero ajudar pessoas doentes e aguardo ansioso pelo momento de transferir minhas fezes de um baldinho de plstico para vrios tubos de ensaio. Mais raciocnios irracionais, porm. Eu quero que elas tenham boa aparncia, e obviamente cheirem muito bem. Que vitamina pode proporcionar isso? 
     Eu hesito diante da solicitao de armazenar as amostras em minha geladeira, e a faculdade envia um motoboy. Eu orgulhosamente lhe estendo a preciosa carga em uma sacola de papel pardo. 
     Sou oficialmente um humanitrio. 


5. ZOOM  O QUE AS SUAS ROUPAS DIZEM SOBRE O BRASIL
E se voc abrisse o armrio e colocasse as suas peas de roupa lado a lado? Oito pessoas de todas as classes, toparam o desafio. O resultado  mais que um retrato de tecidos, texturas e cores. Ele reflete o comportamento, a cultura e o bolso de adultos, crianas, ricos, pobres, homens e mulheres. 
REPORTAGEM / Tain Goulart
EDIO / Felipe van Deursen
DESIGN / Rafael Quick

CLASSE A
OS RICOS
Elite que  elite gasta. Entre pessoas de classe A e B, 23,9% compram roupa todo ms e 70,5% escolhem grifes. Essas pessoas constroem afinidades com as marcas. A sensao de exclusividade  importante: repare que sempre h uma loja vendendo edies limitadas ou colees especiais. Isso alimenta o perfil diferenciado desse tipo de comprador.

A cada estao, a mulher de classe A / B compra 5,7 pares de sapato. E metade compra de impulso.
470 peas  so tantas que nem couberam na pgina.
Ricos costumam comprar mais em ruas de lojas de luxo que em shoppings.

ORIGEM DAS PEAS
89,2% compradas
10,8% presentes
98,4% vieram do Brasil
1,6% veio do exterior
87,1% lojas de rua
12,9% shopping

IDADE DAS PEAS
at 4 meses 11,5%
4 meses a 1 ano 46,5%
1 a 3 anos 24,4%
mais de 3 anos 17,6%

GRIFES E ESPUMANTES
Erika Digon, 36 anos, paulistana, tem uma empresa de assessoria e diz ter rendimentos bastante variveis, de R$4 mil a R$20 mil. Louca por estampas de caveiras e representante da classe A, ela costuma comprar roupas em lojas que servem prosecco aos clientes. Renova o closet de cinco em cinco meses. 

CLASSE B
HOMENS X MULHERES
Metade (50,4%) dos homens brasileiros acha importante estar na moda, mas s 15,2% compram roupa pelo menos uma vez por ms. Entre os casados, 71% no vo para a loja: quem monta o guarda-roupa so suas mulheres. Entre aqueles de 18 a 35 anos, 75% compram roupa pela internet. Preguia? Eles acham "comodidade".

RATA DE SHOPPING
Recm-formada, a publicitria Marcela Cal, 22 anos, ganha em torno de R$ 3 mil em uma agncia. Paulista de Suzano, ela  do tipo esportista, que no abre mo de conforto. Ou seja, vade retro, salto alto. Mulher jovem de classe B, ela representa uma parcela da populao que tem renda prpria e alto poder de compra.

A classe B compra 46,7% das roupas vendidas no Pas.

311 PEAS
ORIGEM DAS PEAS
44,6% presentes
55,4% compradas
32,8% vieram do exterior (o consumo de roupa importada subiu 190% desde 2008, graas  classe mdia)
67,2% vieram do Brasil
10,6% lojas de rua
89,4% shopping

IDADE DAS PEAS
At 4 meses 9,2%
4 meses a 1 ano 27,4%
1 ano a 3 anos 38,5%
Mais de 3 anos 24,9%

COMPRADOR INDEPENDENTE
O economista mineiro Paulo Mendes, 25, gosta de camisetas de bandas e de estampas divertidas. Ele coleciona camisas de times  s do seu Cruzeiro so nove. Ganha R$4,5 mil, representa a classe B e garante que ele mesmo compra suas roupas. 

Camisetas representam 30% do mercado de vesturio.

180 PEAS
ORIGEM DAS PEAS
28,4% presentes
75,2% compradas
22,5% vieram do exterior 
77,5% vieram do Brasil
32,7% lojas de rua
67,3% shopping

IDADE DAS PEAS
At 4 meses 5,5%
4 meses a 1 ano 22,14%
1 ano a 3 anos 26,1%
Mais de 3 anos 46,2%

CLASSE C
A NOVA CLASSE MDIA
A exploso de renda na classe C  visvel no armrio: 58,6% compram roupa de grife. Como 68% dos filhos tm mais educao formal que os pais, o maior acesso  informao aliado ao aumento da renda levou a um guarda-roupa mais variado entre os jovens.

Em 2015, a economia ser sustentada pela classe C, cujo consumo chegar a R$ 1,46 trilho, mais que A e B somadas.

DONA DE CASA
Ieda Rossi, 49, cuida da aparncia com a mesada que ganha do marido. Ela representa uma parcela da populao feminina que no entrou no mercado profissional, o que se reflete no armrio. Quem no trabalha costuma dividir as roupas em sociais e caseiras. 

520 PEAS
Armrio cheio no  mais exclusivo dos ricos
ORIGEM DAS PEAS
65,7% compradas 
34,3% presentes
0,4% veio do exterior 
99,6% vieram do Brasil
59,3% lojas de rua
40,7% shopping

IDADE DAS PEAS
At 4 meses 0,3%
4 meses a 1 ano 16,9%
1 ano a 3 anos 30,1%
Mais de 3 anos 52,7%
Quanto maior a idade, mais roupas antigas a pessoa tem.

EMPREENDEDORA
Ex-sacoleira, a paulista Suelen Gomes, 29,  filha de Ieda e toca uma butique com o marido. A loja d uma renda de R$5 mil mensais, que sustenta as duas filhas crianas.
70% das mulheres de classe C sustentam a famlia
66% das decises de compra de um lar brasileiro so feitas por mulheres

314 PEAS
ORIGEM DAS PEAS
99,7% compradas 
0,3% presentes
2,5% vieram do exterior 
97,5% vieram do Brasil
67,3% lojas de rua
32,7% shopping

IDADE DAS PEAS
At 4 meses 22,3%
4 meses a 1 ano 51,1%
1 ano a 3 anos 14,3%
Mais de 3 anos 12,3%

NOVA GERAO
Yasmin, 6,  a filha mais velha de Suelen. Gosta de imitar a me no salto alto. Ela  de uma gerao mais rica que a de sua me e av: a renda da classe C aumentou 40% nos ltimos anos.

94 PEAS
Com taxa de natalidade maior (3,6 filhos), a classe C  a que mais consome roupas infantis no Pas.

OS POBRES
A renda da classe D cresceu 5,4% nos ltimos cinco anos. Para essas pessoas, preo  mais importante que qualidade no que se refere a roupa. E, apesar do crescimento do comrcio digital, 58,5% preferem lojas populares de rua. O brasileiro melhorou de vida e gasta mais, mas a renda dos 10% mais ricos ainda  39 vezes maior que a dos 10% mais pobres. O que fica ntido e escancarado no vazio dos armrios - quando h um armrio. 

CLASSE D
GAROM
Boanerges Nbrega Filho, 22, saiu de Livramento (PB) para trabalhar em So Paulo. Membro da classe D, passa o dia vestido com o uniforme de garom de bar. Ento, quando vai s compras, prefere peas para sair  noite. A maior parte do que sobra do salrio de cerca de R$600 (fora gorjetas) vai para o p-de-meia para um dia voltar  terra natal. 

20 PEAS
ORIGEM DAS PEAS
0 % presentes
100% compradas 
0% veio do exterior 
100% vieram do Brasil
95,2% lojas de rua
4,8% shopping

IDADE DAS PEAS
At 4 meses 4,8%
4 meses a 1 ano 70,7%
1 ano a 3 anos 7,3%
Mais de 3 anos 17,2%

Do alto  base da pirmide, todos esto consumindo mais. Em cinco anos, as vendas de roupas aumentaram 40,2%.

9 milhes de pessoas fizeram sua primeira compra online em 2012. O comrcio eletrnico deve crescer 25% em 2013.

CLASSE E
DAS RUAS
Srgio Luiz Rock  o nome de nascena do morador de rua Paulo, 33, que vive com um companheiro em uma rua da zona oeste de So Paulo. Faz bicos de pintura e cata latas de alumnio, que levantam cerca de R$ 500 por ms. Todas as suas roupas vieram de doao, e ele representa a classe E. 

11 PEAS
ORIGEM DAS PEAS
100% doao 
0 % comprado
0% veio do exterior 
100% vieram do Brasil

IDADE DAS PEAS
At 4 meses 0%
4 meses a 1 ano 0%
1 ano a 3 anos 0%
Mais de 3 anos 100%

*Adotamos o Critrio de Classificao Econmica Brasil, da Associao Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep). Nem s a faixa salarial  usada como fundamento para a classificao. O CCEB leva em conta tambm nvel de estudo e quantidades de bens durveis.


6. EDUCAO  ONLINE, GRATUITO E DE QUALIDADE
Das grandes universidades  inteligncia coletiva, uma amostra dos melhores cursos grtis da internet.
REPORTAGEM Anna Carolina Rodrigues 
DESIGN Jorge Oliveira 
EDIO Emiliano Urbim

Yale
INTRODUO A PSICOLOGIA
Inicie estudos na rea com os melhores professores do mundo. O curso consiste em vdeos de aulas lecionadas na universidade americana. O formato  semelhante ao de palestras  em cada aula se aborda um tema especfico. Fala-se de aspectos do crebro, razo e emoo, sexo, linguagem, diferenas e doenas mentais. E, claro, Freud.
MTODO: vdeo-aula
DURAO: 20h
IDIOMA: ingls (com legendas em portugus)
LINK: abr.io/aulapsicologia

University of Reddit
COZINHA PARA SOLTEIROS
Alm de passar receitas bsicas e com preparo simples, o curso tambm fala sobre como e quais tipos de alimento congelar. Uma das aulas mais bacanas  sobre como cozinhar de maneira eficiente, para evitar gastos desnecessrios e comida estragando na geladeira. Ah, a receita de molho barbecue com mel tambm  boa. S a estrutura no linear do Reddit pode ser meio confusa para quem no est acostumado. Se voc conseguir passar por isso, existe vida (solteira) alm do miojo.
MTODO: texto e vdeo
DURAO: 18 minutos
IDIOMA: ingls
LINK: abr.io/cozinhasolteiros

Harvard
TUDO SOBRE HERIS GREGOS
O curso acontece numa plataforma online, que exige cadastro e  puxado como se espera de um curso da melhor universidade do mundo. Dentre os autores de literatura pica e de tragdia abordados esto Homero, Sfocles e Plato. O curso conta tambm com um frum para que os alunos possam interagir e debater os assuntos das aulas. A plataforma  bem fcil de seguir. J os textos so de fundir o crebro.
MTODO: texto, vdeo e exerccios
DURAO:6h/semana(24h)
IDIOMA: ingls
LlNK: abr.io/herois

Livemocha
APRENDA IDIOMAS ENSINANDO IDIOMAS
Nessa rede social,  possvel aprender 38 idiomas, que vo desde o ingls at lituano, indonsio e finlands. A estrutura  bacana e d para conversar por chat com outros usurios  a ideia  que um ajude o outro. Alguns exerccios, como os de escrita e fala, so corrigidos por usurios que j dominam o idioma que voc estiver aprendendo. Ao se cadastrar, o usurio recebe 200 tokens, moedas do site que so usadas para "pagar" pelas lies. Para ganhar mais tokens e, logo, continuar com os estudos,  preciso ajudar outros usurios tambm.
MTODO: texto, exerccios e vdeo
DURAO: indefinida
IDIOMA: portugus
LINK: abr.io/idioma

iPed
PRIMEIROS SOCORROS PARA INICIANTES
Aprenda a lidar com vtimas de acidentes, avaliando seus sinais vitais (temperatura, pulso, respirao e presso arterial) e sintomas que indicam a gravidade da situao da vtima. O curso mostra vrias situaes de emergncia e como agir em cada uma delas. H tambm a opo de um curso pago, mais aprofundado.
MTODO: texto, imagens e exerccios
DURAO: 2h
IDIOMA: portugus
LINK: abr.io/socorros

Aplicativo para IOS e Android
ACADEMIA PORTTIL  AT DE BOLSO
Conhea um carrasco maravilhoso. O aplicativo Nike Training Club traz dezenas de sries de exerccios separadas por categorias diferentes, como "quero emagrecer" ou "quero definir". Basta escolher o nvel de treinamento (iniciante, intermedirio ou avanado) e comear. O adio de uma treinadora guia voc, e um cronometro na tela marca o tempo de cada exerccio. H tambm a opo de ver o vdeo de cada movimento. A cada srie completa, o usurio ganha pontos e vai desbloqueando mais contedo.
MTODO: udio e vdeo
DURAO: 15-45 min por srie
IDIOMA: ingls
LlNK: abr.io/treino

Fundao Getlio Vargas (FGV)
COMO FAZER INVESTIMENTOS
Com o histrico de inflao, os brasileiros ainda tm medo de ousar com o dinheiro. O curso explica por que as pessoas devem investir, fala sobre opes de investimentos, dando noes de risco e retorno, ajuda a descobrir qual seu perfil de investidor  aprendi que o meu  conservador, pois s invisto em poupana e previdncia privada. E aprendi que a mxima  verdadeira: investir direito  fazer o dinheiro trabalhar por voc.
MTODO: leitura de textos
DURAO: 12h
IDIOMA: portugus
LINK: abr.io/investimentos

Codecademy
PROGRAMAO POR TENTATIVA E ACERTO
A dinmica  bem legal, pois o curso acontece basicamente em uma janela. Basta seguir as diretrizes que aparecem escritas na tela para comear a aprender de maneira prtica a linguagem de programao.
MTODO: texto e exerccios
DURAO: 12h (estimado)
IDIOMA: ingls
LINK: abr.io/programar

ENCONTRE SEUS CURSOS
Os sites CourseTalk (coursetalk.org) e Knollop (knollop.com) ajudam a pesquisar e comparar cursos. Ao digitar o assunto desejado, as ferramentas ajudam a pesquisar cursos disponveis em todos os grandes sites de contedo, como edX e Coursera, por exemplo.


7. VIAGEM  O VOO MAIS LONGO, DO PAS
5.753 quilmetros. 13 horas 12 pousos e decolagens em seis Estados. E tudo isso s para ir de So Paulo at Recife. Nossa reprter embarcou nesse avio  e conta o que descobriu por l.
REPORTAGEM / Cristine Kist
EDIO / Bruno Garattoni
DESIGN / Paula Bustamante
FOTO / Arthuzzi

     Na fila do aeroporto de Guarulhos, um casal aponta para a tela que fica sobre o porto de embarque. "Voc viu quantas escalas tem esse voo?", pergunta a mulher. Perplexos, eles comeam a contar as cidades pelas quais o avio ir passar  e so tantas que nem conseguem terminar, interrompidos pelo funcionrio que carimba as passagens. Estamos prestes a embarcar no voo 1650 da Gol, que vai de So Paulo a Recife.  um trajeto de 2.133 quilmetros, que normalmente leva em torno de trs horas. Mas nosso avio far outra rota, que a princpio parece desafiar o bom senso. O Boeing 737-800 dar uma gigantesca volta de 5.753 quilmetros, atravessando o Brasil de leste a oeste duas vezes e fazendo nada menos do que cinco escalas  Manaus, Santarm, Belm, So Lus e Fortaleza  at chegar ao destino. Em vez de trs horas, a viagem vai levar 13. 
     O voo foi criado em fevereiro deste ano pela Gol. A ideia da empresa  ir pegando e deixando passageiros pelo caminho, desde gente que vai de So Paulo para Manaus at pessoas que circulam entre os Estados do Norte e Nordeste. "A ideia  que o passageiro sempre encontre o melhor caminho no melhor horrio. Esses voos longos, no cenrio atual de malhas grandes e complexas, perdem a finalidade de levar a pessoa do incio ao fim do trajeto, e sim se tornam alimentadores de uma rede, como um nibus", explica Ricardo Scorza, um dos diretores da Gol. Na prtica, portanto, ningum acompanha toda a odisseia do voo 1650. Mas eu vou fazer isso  por apenas R$ 345, comprei uma passagem que d direito a fazer o caminho inteiro. 
     Meu assento  o 8C, no corredor. O avio no est lotado (cabem 183 passageiros), mas tem bastante gente. Decolamos com 16 minutos de atraso. No por excesso de avies na pista ou por algum problema tcnico, mas porque o funcionrio responsvel pela remoo do finger se atrapalhou com alguma coisa. Alheia  explicao do atraso, feita apenas em portugus pelo sistema de som, uma famlia oriental se acomoda nas poltronas da sexta fileira. Enquanto o pai folheia um guia do Brasil em japons, a me fica de olho nas duas filhas pr-adolescentes. Uma delas me explica em ingls que eles vo fazer um "safri" na floresta amaznica. 
     Logo o almoo comea a ser servido. O voo no tem comida de graa.  tudo pago, em dinheiro ou em uma maquininha que aceita cartes de crdito (ela armazena as transaes e s as completa quando o avio est em solo). s vezes a maquininha d pau  aconteceu no trecho entre Belm e So Lus. Nesses casos, os passageiros ganham saquinhos de amendoim grtis. Mas, mesmo quando ela funciona  normalmente, torna tudo muito demorado. No primeiro trecho, o atendimento  feito em pleno horrio de almoo, e os comissrios levam quase uma hora para atender metade dos passageiros. 
     A equipe de cada voo  formada por um comandante, um copiloto e quatro comissrios de bordo  trs ficam no fundo da aeronave e um na parte da frente. "Algum precisa ficar na frente porque s vezes os passageiros querem ir ao banheiro e tentam abrir a porta do avio", conta a simptica aeromoa Shirley, a responsvel por guiar os mais desorientados nesse trecho do voo. Por volta das 13h, o comandante sai da cabine com escova e pasta de dente na mo e espera cinco minutos at que um dos passageiros desocupe o banheiro. Ele e o resto da tripulao vo desembarcar j em Manaus, onde devem passar a noite. No dia seguinte, seguiro para So Lus em outro voo. 
     Pousamos em Manaus s 14h41 (13h41 no horrio local). Quase todo mundo desembarca, inclusive a tripulao. "A lei probe que os passageiros fiquem em um avio sem comissrios, ento a troca tem de ser feita de maneira rpida", diz Cludio Neves Borges, diretor de planejamento de malha da Gol. Um funcionrio do aeroporto entra com uma listinha e faz uma chamada para ver se as pessoas que compraram passagem para outros destinos continuam a bordo (alm de mim, cerca de 20 pessoas vo seguir viagem). Enquanto isso, o pessoal da limpeza comea a recolher o lixo  a cada trecho voado, so seis quilos de copinhos de plstico, guardanapos sujos e restos de sanduche. 
     Sinto uma leve dor de ouvido e comeo a me questionar sobre at que ponto foi inteligente escalar uma reprter com sinusite para fazer essa matria. Um casal de franceses se senta ao meu lado e, 50 minutos depois do pouso, o avio decola de novo. O homem se chama Louis, est na casa dos 60 anos e  produtor de TV em Paris. Ele e a amiga ("no  minha esposa") vo fazer um tour de um ms pelo Brasil: comearam em Manaus, esto indo conhecer os Lenis Maranhenses e depois seguiro para o litoral do Nordeste e o interior de Minas. Ele pergunta se conheo Santarm. Explico que  uma cidade relativamente pequena, no muito procurada pelos turistas. E Belm, conheo? "No". E So Lus? "...". Ele desiste e comea a ler a edio francesa de um livro chamado O Navio Negreiro, enquanto a amiga l La Cite de Dieu (a traduo de Cidade de Deus, de Paulo Lins). Atrs de ns est sentado um grupo de quatro homens que embarcou em So Paulo e vai descer em Santarm. De l, eles vo encarar mais trs horas de lancha at bidos, cidade de 49 mil habitantes no interior do Par, para participar de uma misso evanglica. 
     A pista de pouso de Santarm fica colada numa lagoa. O aeroporto Maestro Wilson Fonseca foi criado em 1977 pela Superintendncia de Desenvolvimento da Amaznia (Sudam) como parte de um plano para facilitar a ligao entre o norte e o resto do Pas, mas a Gol s comeou a operar l em 2006. O aeroporto tem cinco vagas para estacionamento de aeronaves e capacidade para receber 225 mil pessoas por ano (Guarulhos pode receber at 35 milhes). Alguns passageiros desembarcam e vo andando at a parte coberta do aeroporto. 
     Respondo  segunda chamada do dia e comea o embarque de um grupo de 21 alunos da Apae (associao dedicada a promover o desenvolvimento e o bem-estar de pessoas com deficincia) que est indo a Belm participar de um festival de msica. Eles conseguiram o dinheiro das passagens por meio de rifas e doaes e, se vencerem, vo participar da prxima etapa, em So Lus. Helosa Silva, uma das professoras que acompanham os estudantes, conta que s trs alunos ainda no tinham viajado de avio: "Como eles participam sempre desses festivais, esto acostumados com essas viagens." 
     Chegamos a Belm s 18h. Depois do desembarque, o francs Louis e outros dois ou trs passageiros que continuam a bordo aproveitam o avio vazio para fazer uma srie de alongamentos. O corredor fica parecido com uma daquelas aulas de ginstica que a Jane Fonda dava nos anos 80. O pessoal da faxina recolhe o lixo e mais um embarque comea. Mas o perfil dos passageiros mudou. Agora, a maioria  formada por executivos. Isso no  por acaso; esta parte do voo foi planejada para atender aos empresrios que se deslocam entre as capitais nordestinas durante o fim da tarde e o incio da noite. Decolamos s 18h51 e, 20 minutos depois, quase todos esto dormindo. Na poltrona da minha frente, um sujeito com menos pinta de empresrio l um jornal popular. A manchete: "Sem teto urina em policiais militares". 
     Chegamos a So Lus e sobram uns 20 passageiros  no avio. Mesmo assim, uma fila se forma na porta do banheiro. "As pessoas s vo ao toalete quando o avio est no solo, o que nos incomoda muito", reclama um dos comissrios.  que esse  o momento do reabastecimento da gua da torneira e do ar da descarga, alm da troca dos rolos de papel higinico: "Pode escrever no seu texto que no tem problema ir ao banheiro durante o voo", completa ele. 
     No lugar em que j estiveram os missionrios evanglicos, sentam trs irms maranhenses na faixa dos 40 anos que esto indo passar frias em Fortaleza. A mais animada, Luciana, diz que vai ficar dez dias com as irms num spa: "Preciso emagrecer um pouquinho, n?". Tambm nessa perna do voo embarcam alguns executivos, mas so os turistas que chamam mais ateno. A capital do Cear  a cidade com o maior PIB do Nordeste, e o setor de servios, que abrange os negcios relacionados ao turismo, responde por 77% da riqueza da cidade. 
     Pouco antes da chegada a Fortaleza, depois de quase dez horas de voo, as luzes so reduzidas e vejo de relance uma galinha ciscando no corredor ao lado da minha poltrona. A galinha , na verdade, o chinelo vermelho da Luciana, que estava sentada atrs de mim e resolveu dar uma esticada no p. 
     J so 21h17 quando finalmente pousamos. O segundo grupo de tripulantes, que estava no avio desde Manaus (h mais ou menos sete horas), vai descer aqui. Eles esperam o desembarque dos passageiros e se despedem de mim com um abrao e as nicas palavras possveis naquele momento: "Falta pouco". 
     Durante a ltima decolagem do dia, s 22h08, vejo outros dois avies pela janela. "Esses avies foram planejados e no estavam na nossa rota ( frente do avio).  seguro e  previsto", me explicou o comandante Daniel Medina Guimares. O piloto anuncia que uma das comissrias, Cristiane, que os colegas apelidaram de "galega", est completando 25 anos de aviao. Os passageiros aplaudem. E essa  minha ltima lembrana antes do pouso em Recife, porque depois disso, preciso confessar, dormi em servio pela primeira vez.

O VOO FUNCIONA QUASE COMO UM NIBUS PINGA-PINGA: NINGUM FICA AT O FINAL.
Quanto tempo o mesmo trajeto levaria de carro sem parar nem para fazer xixi: Se a mdia fosse 80 KM/H levaria 71 horas ou quase 3 dias.
Quanto tempo leva de carro de So Paulo at Recife direto: 30 horas


8. COMPORTAMENTO  SUPER-MERCADO, O LABORATRIO
No se engane. Somos ratinhos em um labirinto quando vamos s compras. Dcadas de pesquisa transformaram os mercados em lugares cuidadosamente planejados para passarmos mais tempo neles  e gastarmos mais.
INFOGRFICO / Cludia de Castro Lima, Felipe van Deursen, Cristine Kist, Jorge Oliveira e Lgia Duque

ZONAS DOURADAS
As reas perto dos caixas vivem cheias de produtos baratos ou que no so essenciais. A ideia  essa mesmo. Voc tem a sensao de misso cumprida, j comprou ovo e xampu, agora pode pegar um doce e uma revista de fofoca (ou a SUPER, vai). E, com a fila, a chance de comprar por impulso  maior. 

EXCESSOS
Grandes lojas vendem at 80 mil produtos. Mas usamos no mximo 300 em um ano. Menos pode ser mais. No exterior, a Danone reduziu sua quantidade de produtos em 40%. S 15% do pblico notou, e as vendas subiram 20%. 

CALMA PARA ESCOLHER
As pessoas tendem a passar menos tempo em locais que parecem muito cheios. Por isso, produtos disponveis em muitas marcas e que levam mais tempo para serem comprados (cereais, caf ou vinho, por exemplo) costumam estar em reas com menos movimento  geralmente, no lado esquerdo, j que a entrada costuma ser  direita da loja. 

COM O P DIREITO
Aps anos de observao os pesquisadores constataram que quem entra pela direita em uma loja tende a gastar pelo menos US$ 2 a mai. No se sabe exatamente o motivo, mas mercados que induzem o consumidor a entrar pela direita costumam estar mais cheios.

ROTA OBRIGATRIA
H uma razo para produtos importantes como laticnios, pes e carnes ficarem na parte de trs do mercado: para chegar at eles, temos de atravessar a loja. E, durante o passeio, cresce a chance de encontrar aquela barraca de camping  que de repente parece indispensvel.

LUGARES NOBRES
Empresas pagam mais para ter os produtos expostos na altura mdia dos olhos da populao (1,60 m).  a rea nobre das prateleiras, onde vende mais. S que um novo estudo analisou os olhos dos consumidores e descobriu que passamos mais tempo olhando, na verdade, para o que est na altura do peito. A fabricante P&G, ao saber da pesquisa, comeou a pedir prateleiras mais baixas  e mais baratas  nos mercados americanos. Ainda no se sabe se isso mudou os preos de cada rea, que so sigilosos. 

ESQUINAS DA PROMOO
Aqui ficam produtos em promoo ou de marcas da prpria loja (como a Taeq, do Po de Acar). Estamos acostumados a comprar nessa rea. Tanto que a rede americana de farmcias CVS passou a pr produtos sem desconto, mas com aquelas placas que fazem parecer promoo. As vendas cresceram 5%. 

"BOM NEGCIO"
Aquelas promoes de curto prazo de aparelhos de televiso e DVDs, em que os produtos so empilhados na prpria caixa, costumam ficar no centro da loja. A presena das caixas d a impresso de que h poucas unidades  venda e de que voc vai fazer um bom negcio se levar uma. 

Algumas lojas tm reas de lazer, como cafs. Em mdia, ficamos 28 minutos em mercados do tipo. 
Passamos 80% do nosso tempo na loja procurando os itens que vamos comprar.
Apenas 1/4 das pessoas faz lista de compras.
Supermercados no costumam ter relgios nem janelas para que voc no sinta o tempo passando.
O trajeto que fazemos no mercado geralmente  em forma de U invertido. 
Pelo menos 60% das compras so decididas no prprio ponto de venda.
Em 50% das vezes que as pessoas vo ao mercado, elas levam cinco itens ou menos.

Fontes: Associao de Consumidores Proteste; Sandra Turchi, professora de MBA em Marketing Digital da ESPM e FGV: Siemon Scamell-Katz, autor do livro The Art of Shopping: How We Shop and Why We Buy e especialista em comportamento do consumidor.


9. SADE  COMO SER O SEU FIM?
A medicina avanou, mas ainda tem limite. Quando ele chega, voc precisa decidir como quer que seja a sua morte. Ou algum vai decidir por voc.
REPORTAGEM / Mariana Bom fim
FOTO / Alex Silva
DESIGN / Paula Bustamante
EDIO /  Emiliano Urbim

     COMO VOC QUER MORRER? pode parecer uma ideia meio mrbida, sobre a qual voc no gostaria de refletir agora. Ou nunca. Mas, quando chegar a hora (e ela sempre chega),  bom que voc j tenha pensado no assunto  pode ser a diferena entre uma morte tranquila ou uma sobrevida tumultuada. 
     No se morre mais como antigamente. Durante boa parte da histria da humanidade, as pessoas viviam seus 30 anos e eram vtimas de doenas sbitas ou infecciosas. Hoje, a expectativa de vida bate nos 70 anos, e mais de 60% das mortes ocorrem por doenas crnicas (cncer, diabetes, males cardiovasculares e respiratrios), que progridem lentamente. Ou seja: a maior parte das pessoas vai ter de conviver muito tempo com a aproximao da morte. E lidar com um dilema: usar ou no a tecnologia disponvel para prolongar a vida do organismo? 
     Uma pesquisa publicada no British Medical Journal mostra que dar ao paciente o poder de deciso no  s uma questo tica: a sade dos familiares  beneficiada. Estresse, ansiedade e depresso so menos frequentes entre parentes de pacientes terminais que tm algum controle sobre seu tratamento. "O correto seria a pessoa saber que a doena que ela tem  incurvel no momento do diagnstico", diz Ana Cludia Arantes, geriatra no Hospital Israelita Albert Einstein e co-fundadora da Casa do Cuidar, em So Paulo. Um paciente diagnosticado com demncia, por exemplo, deveria ser informado de que sua doena vai progredir at impedir sua comunicao e, portanto, seria bom esclarecer como deseja ser tratado enquanto ainda consegue se expressar. "Mas bastou voc ficar na horizontal que os outros tiram a chance de voc responder pela sua vida", afirma Ana Cludia. 

O NOVO TESTAMENTO 
     A boa notcia  que voc j pode deixar registrados os seus penltimos desejos.  o testamento vital, adotado por 40% dos americanos e vlido no Brasil desde 2012. Neste documento, voc detalha quais procedimentos mdicos voc quer usar para prolongar a vida  dilise, respiradores artificiais, ressuscitao com desfibrilador, tubo de alimentao. Mas tambm pode deixar claro que no quer retardar sua morte. 
     Na prtica, significa que o mdico pode realizar a ortotansia: permitir que o paciente morra naturalmente quando a medicina no puder fazer mais nada para cur-lo.  o oposto da distansia, o prolongamento da vida usando todos os procedimentos mdicos possveis. Ortotansia no quer dizer que o paciente  abandonado: ele ainda recebe medicamentos para aliviar o sofrimento. Mas os mdicos no vo tentar ressuscit-lo, prolongando sua vida artificialmente.  uma grande mudana. "Culturalmente, a gente no aceita a morte. O prprio mdico tem dificuldade porque foi treinado para salvar", diz Eliezer Silva, chefe da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do Hospital Israelita Albert Einstein, em So Paulo. 
     O maior argumento a favor do testamento vital  que, quando o fim est prximo, o fluxo de informao tende a se deteriorar na mesma medida que a sade. Um exemplo disso apareceu em uma pesquisa recente: o objetivo era descobrir o que pacientes diagnosticados com uma doena terminal queriam e o que mdicos fariam caso fossem diagnosticados com a mesma doena. Os resultados so bem discrepantes. A proporo de mdicos que declararam desejar prolongar a vida o mximo possvel usando todos os meios disponveis foi quase sete vezes menor que a de pacientes. Duas concluses possveis: pacientes valorizam tanto a sobrevivncia que recebem tratamentos agressivos numa frequncia maior do que os mdicos escolheriam para eles prprios; a qualidade da comunicao entre mdicos e pacientes  pssima. 

NO TEM CURA, MAS TEM JEITO 
     "O melhor lugar para morrer  onde tudo que precisa para o seu conforto est disponvel de forma rpida", acredita Ana Cludia, que, alm de geriatra,  especialista em cuidado paliativo.  Diante de uma doena incurvel, paliativistas tm como principal meta aliviar o sofrimento. "Um paciente tem demncia, est com dez escaras, teve quatro pneumonias em um ano e est pesando 32 quilos. Se o corao dele parar, no quer dizer que ele teve uma parada cardaca. Ele morreu. Reverter essa condio, trazendo de volta uma pessoa em processo ativo e irreversvel de morte,  um erro gravssimo", diz Ana Cludia. 
 por isso que, nos locais onde os profissionais de sade oferecem cuidado paliativo, a mortalidade  de 100%. As pessoas j esto morrendo e decidiram passar l suas ltimas semanas ou meses. Nos chamados hospices, comuns nos EUA e ainda novidade no Brasil, h o suporte bsico, mas sem as restries tpicas do hospital. No faz sentido, por exemplo, manter sondas de alimentao se comer pela boca vai proporcionar mais conforto. Se h dificuldade para respirar, medicamentos podem reduzir a percepo da falta de ar e a terapia ocupacional vai ensinar o paciente a realizar as tarefas cotidianas (comer, tomar banho, se trocar) de um jeito que canse menos. 
     Um dos efeitos do cuidado paliativo , surpreendentemente, o adiamento da morte. Segundo um estudo publicado pelo New England Journal of Medicine, pacientes com cncer de pulmo terminal tratados com cuidado paliativo viveram em mdia 80 dias a mais que os pacientes submetidos aos tratamentos tradicionais. Ana Cludia tambm j viu gente viver mais que o prognstico e descreve o que acredita que se passa com esses pacientes: "Passou sua dor, sua falta de ar, sua nusea, seu mal-estar. Ento voc se sente seguro e tem vontade de viver". 
     Aceitar a morte nunca  fcil. Uma coisa  estar saudvel e falar sobre ela no happy hour. Outra  receber a notcia de que tem alguns meses de vida. Mas, se a morte  inevitvel, talvez seja hora de derrubar o tabu. Porque viver bem no inclui no morrer. Inclui morrer bem. 

TECNOLOGIA DA IMORTALIDADE
No tratamento tradicional, pacientes terminais se valem de aparelhos que prolongam sua vida ao mximo. 

DIETA ALTERNATIVA
Sondas e soros substituem a alimentao normal se isso servir  sobrevivncia.

COMBATE AO MAL
O procedimento comum , at o fim, mirarem todas as armas na doena.

A META DO CUIDADO PALIATIVO NO  CURAR, MAS FACILITAR O FIM.

TERAPIA OCUPACIONAL
Em um centro de cuidado paliativo, exames do lugar  recreao e tempo com a famlia. 

COMIDA CASEIRA
Neste tipo de tratamento, sondas e soros podem ser dispensados. Se a morte  inevitvel, vale o que deixar o paciente mais  vontade. 

CONTROLE DA DOR
Na ortotansia, o objetivo dos remdios no  mais curar a doena, mas minimizar o sofrimento do doente terminal. 

LEIA O DEPOIMENTO DE UMA FILHA CUJO PAI FOI ADEPTO DA ORTOTANSIA.
abr.ai/ortotanasia


